LULA CONDENADO, E DAÍ?

Carlos Brickmann – 16/07/2017

BRICKMANN 2
Carlos Brickman

Além de nove anos e meio de prisão, a pena de Lula o proíbe de ocupar cargo ou função pública. Mas Lula não vai para a prisão; e a proibição do exercício de cargo ou função pública só passa a valer se for confirmada pelo Tribunal Federal de Recursos, TRF-4, em Porto Alegre. Mesmo se a apelação for negada, Lula ainda poderá ser candidato à Presidência, desde que a sentença não seja dada antes do fim do prazo de registro de sua candidatura. Resumindo: em termos penais e de lei eleitoral, não mudou nada. Com sentença ou sem sentença, Lula continua solto e é candidato.

A questão já não envolve o juiz Sérgio Moro. Tudo depende do eleitor. Se a condenação afetar o prestígio de Lula, a ponto de reduzir a tradicional fatia fiel de 25 a 30% do eleitorado, o PT, longe do poder, deve demorar para recuperar-se. Caso a prisão não afete o prestígio de Lula, o PT vai se recuperar da estrondosa derrota das últimas eleições. Com a anulação da pena, será candidato à Presidência e se apresentará como injustiçado, perseguido por querer reduzir a desigualdade social. E, se for preso, ficará como vítima e tentará eleger algum poste para presidente. Quem elegeu Dilma é capaz de tudo – embora, dessa vez, sem estar no Governo. Comenta-se que pensa em dois nomes: Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, e Guilherme Boulos, dos sem-teto. Ciro Gomes seria mais forte, mas não é do PT. E Lula jamais aceitou alianças sem o PT no comando.

Limpeza de ficha

A proibição de exercício de cargo ou função pública, mesmo confirmada pelo TRF-4, só entra em vigor após a confirmação (ou agravamento) da sentença, em Brasília, sabe-se lá quando. Mas existe a Lei da Ficha Limpa, que impede que condenados em segunda instância se candidatem. Lula, mantida ou ampliada a sentença, estará inelegível como ficha suja.

Caneta pesada

Agravamento da sentença? Sim: até agora, os três desembargadores da Oitava Turma do TRF-4, encarregados de julgar as apelações dos processos da Lava Jato, têm sido mais duros que Sérgio Moro. Em 23 apelações, libertaram cinco réus (incluindo João Vaccari Neto) e aumentaram as penas em 16 casos. De 365 pedidos de habeas corpus, concederam quatro.

Quem contra quem?

O PT tem candidato, Lula (ou quem Lula mandar). Ciro Gomes é candidato pelo PDT, correndo na mesma faixa do escolhido de Lula (se Lula se lançar, Ciro pode se aliar a ele). O PSDB oscila entre Alckmin, Serra e, apesar de tudo, Aécio; e pode lançar João Dória Jr., que subiu nas pesquisas pelo bom desempenho na Prefeitura de São Paulo. Em qualquer caso, sai desunido, como sempre.   PSB e Rede, de Marina Silva, tentam convencer o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (lembra-se dele?) a entrar. Sem Barbosa, a Rede lança Marina. Há quem pense em Sérgio Moro. Há espaço para alguém sem passado político. Há Jair Bolsonaro, PSC, crescendo: busca o voto de quem tem saudades do regime militar.

Revivendo – a economia

Parafraseando um grande jornalista, Pedro Cavalcanti, a melhor coisa da ditadura militar é que todos tínhamos uns 40 anos a menos. Houve também, em parte do tempo, excelentes índices de crescimento (porém o mais duro dos ditadores, general Emílio Médici, em cujo governo o país cresceu mais aceleradamente, disse: “a economia vai bem, mas o povo vai mal”). E, apesar dos plenos poderes, o regime militar se encerrou com a inflação a mais de 240% ao ano. Houve estatizações em massa, para os escolhidos o BNDE financiou até a produção de goiabada em lata, ruínas de obras monumentais, iniciadas e abandonadas, demonstram que já havia pouco caso com o dinheiro público. Exemplo: na Rio-Santos projetada, iniciada e abandonada, há até túneis sem o tradicional morro em cima. Acabou-se construindo outra Rio-Santos, mais simples, em cima das estradas velhas.

Revivendo – a barbárie

E houve a grande mancha da tortura. Houve o delegado Sérgio Fleury, cuja esplêndida biografia, Autópsia do Medo, feita pelo repórter Percival de Souza, mostra um assassino que tinha prazer em matar, um torturador que tinha prazer em torturar. Vários torturadores, depois da ditadura, migraram para o crime: tomaram a bala os pontos de bicheiros. E passaram a viver da contravenção. Segurança nas ruas? Besteira: este colunista viveu a época em que, em São Paulo, os assaltantes eram conhecidos pelo nome, de tão poucos. E viu a segurança se deteriorar nos tempos da ditadura.

Qualquer ditadura é indefensável, e a brasileira exagerou na barbárie. Se é isso que Jair Bolsonaro elogia, é preciso pensar muito antes de votar nele.

Vale a pena ver o que diz o advogado José Paulo Cavalcanti Filho, insuspeito de esquerdismo, estudioso da ditadura militar, num artigo brilhante, que dá gosto de ler: está em http://wp.me/p6GVg3-3CN.


COMENTEcarlos@brickmann.com.br

Twitter: @CarlosBrickmann

 

Anúncios

3 Responses to LULA CONDENADO, E DAÍ?

  1. magu™ says:

    Respeito muito Brickmann, um jornalista da velha guarda, mas devo não concordar com o último parágrafo deste post.
    Insuspeito de esquerdismo?
    Não tenho a fama do Carlinhos, que há de me perdoar, mas lí e comentei o que diz o José Paulo Cavalcanti Filho, no nosso post anterior publicado em https://blogdogiuliosanmartini.wordpress.com/2017/07/15/intervencao-militar-ja/
    Leiam meu comentário lá…

  2. Cláudio Roberto de Oliveira says:

    “busca o voto de quem tem saudade do regime militar”. Tem saudades de alguma coisa aquele que viveu essa coisa. Engana-se, assim, redondamente, Carlos Brickman, de quem gosto muito, porque a grande maioria dos eleitores de Bolsonaro, são todos jovens, muito jovens, que não sentem saudades de nosso Regime Militar, porque não viveram naquele tempo. Os eleitores de Bolsonaro o que querem é um mínimo de ordem nessa casa de mãe joana em que se transformou o Brasil. Esses eleitores são ferrenhos combatentes contrários à ideologia comunista que a esquerda tenta defender, porque sentem nojo das pessoas responsáveis pelos estragos que ela provocou no Brasil. Esses jovens percebem esse desastre, claramente mostrados em Países como Cuba e Venezuela. A cara de che não estampa as camisetas desses jovens,lá aparece a de Bolsonaro, Há muito tempo venho dizendo que meus filhos mais novos votam em Bolsonaro e os amigos de seus amigos da mesma forma. Juram que elegerão Bolsonaro Presidente em 2018 e que ninguém o supera em votos hoje. A esse exército de jovens somam-se aqueles que têm saudades do Regime Militar, mas ainda não todos.

  3. Tito says:

    Esta texto foi também publicado no JBF, então vou colar meu comentário, a resposta do Brickmann e a minha tréplica:

    Na “ditadura” com eleições livres, você diz que houve o Fleury, mas esquece que houve também o Lamarca e o Marighella, com todos os predicados do delegado e mais alguns até piores que nem preciso citar, pois qualquer pessoa que conhece a história sabe.
    Você diz que, morando em São Paulo, viu a segurança se deteriorar nos tempos da “ditadura”. Eu morava no Rio de Janeiro, e só vi o mesmo acontecer a partir do governo Leonel Brizola.
    Você, uma pessoa extremamente culta, sabe bem o verdadeiro motivo da deterioração da segurança pública no Brasil, mas mesmo assim, tenta colocá-la na conta da “ditadura”. Valha-me Deus! Parece má fé. Será?
    Concordo com você quando afirma valer a pena ler o artigo do advogado José Paulo Cavalcanti Filho, mesmo que para discordar, e quem acompanhou a tal “comessão” de dinheiro público que ele cita, discorda.
    Mas, se ele é insuspeito de esquerdismo, fez parte dessa comissão farsante, em que o “Marcola” ouviu as verdades do “Fernandinho Beira-Mar”.
    Logo, se insuspeito de esquerdismo, ele é suspeito de parcialismo, da mesma forma que é parcial o seu artigo.

    Carlos Ernani Brickmann disse:
    19 de julho de 2017 às 19:53

    Caro Tito: em primeiro lugar, obrigado pela leitura. E, como diria Jack, o Estripador, vamos por partes.
    1 – Na ditadura não houve eleições livres. Foram indiretas, desde o marechal Castello até o general Figueiredo, com candidatos indicados pelas Forças Armadas. O general Albuquerque Lima foi impedido de se candidatar, para não atrapalhar o candidato oficial; o Ulysses Guimarães foi cercado pela Polícia Militar baiana, com cães, para não fazer campanha. Aqueles que, numa eleição direta, seriam os favoritos, foram cassados:
    Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek.
    3 – Não sei o motivo principal da deterioração da segurança pública – há drogas, há a falta de apoio governamental à Polícia, há a ojeriza pelo trabalho policial do PSDB e do PT, os dois partidos que nos governam desde 1994, a falta de avanço da tecnologia policial – até hoje não temos, por exemplo, um banco nacional de dados de segurança pública.Mas em SP a deterioração da segurança ocorreu a partir do governo Abreu Sodré, que dissolveu a Guarda Civil e transferiu seus homens para a Polícia investigativa.
    4 – No Rio, a deterioração se evidenciou no governo Leonel Brizola, que proibiu a Polícia de entrar en favelas. Com isso, deixou os moradores ordeiros à mercê dos criminosos
    5 – Os artigos que publicamos no site Chumbo Gordo são de todas as tendências do arco democrático. O advogado José Paulo Cavalcanti está nesse arco. Discordar dele faz parte do jogo. E, é preciso lembrar, ele é pernambucano e atua principalmente em Pernambuco, onde houve coisas ainda mais bárbaras que as do Sul do país durante a ditadura. Ele é parcial, claro; o artigo é a opinião dele, devidamente assinada.
    5 – Eu também sou parcial, Tito. Todos somos parciais. Todos temos uma história de vida que ajuda a moldar nossas atitudes. Mas veja, em 64 eu apoiava com firmeza a deposição de Goulart(e até hoje não tolero o comunismo, como não tolero o racismo). Mas fui vendo coisas que me levaram a concluir que nenhuma ditadura pode ser boa, mesmo que as intenções iniciais o seja. Veja outra coisa: a política econômica de Dilma era muito semelhante à de Geisel. Está certo que ele era melhor do que ela, mas a condução econômica baseada em estatizações, “campeões nacionais” apoiados pelo Governo e antiamericanismo irracional é a mesma. Nos tempos de Geisel, o BNDE apoiou a Paoletti e fez com que o Governo virasse produtor de goiabada. No de Dilma, o BNDES apoiou o JBS e pôs o Governo cuidando de carne fresca. Eu fui contra os dois.

    Tito disse:
    20 de julho de 2017 às 16:17

    Caro Brickmann, quando me referi a eleições livres, foi a respeito de parlamentares, prefeitos e governadores, exceto, claro, os biônicos que foram sendo extintos com o passar do tempo. Por isso, não concordo com o termo ditadura, prefiro falar em governo pelos militares. Lembro que o MDB falava o que queria e o que não queria sem que houvesse algum tipo de censura na maioria do período. Ah, e o bipartidarismo? Na minha opinião era excelente. Hoje temos, se não me engano, pois é difícil pra qualquer brasileiro quantificar, mais de 34 partidos e seguindo ao infinito, o que tornou impossível governar sem fazer troca troca e barganhas, sem falar na Constituição de 88, a Constituição que criou direitos, esqueceu do deveres e criou a jabuticaba chamada Presidencialismo de Coalisão.
    Quanto à violência, não posso falar por São Paulo, mas posso afirmar que no Rio ela não foi evidenciada, pois praticamente não havia. Havia furtos, roubos e poucos assaltos e assassinatos. Latrocínio, nem se ouvia falar de tão raro. Ela foi iniciada no governo Brizola. A partir de então, começamos a ter receio de andar nas ruas e bandido começou a atirar em policiais.
    Sei que seus artigos são democráticos e sei também que você não tolera o comunismo, pois sempre leio os seus artigos e concordo com a grande maioria do que você escreve.
    Quanto à parcialidade, claro que todos somos, mas só podemos ser nas opiniões e não nos fatos. Contra fatos não há argumentos, e nesse caso que comentei, seu artigo foi de encontro aos fatos, da mesma forma que a tal comissão da “inverdade” também foi, pois era formada por apenas um “time” que jogou apenas contra ele mesmo… e venceu. Logo, creio que a minha crítica ao advogado é baseada em fatos. Se eu faço parte de um “time”, nunca irei jogar contra ele.
    E para concluir, concordo com você que a ideia de estatização, não só do Geisel, mas de grande parte dos militares, foi um grande erro e vai totalmente de encontro ao capitalismo. Estado não tem que ser e não pode ser empresário.
    Houve erros sim, mas na minha opinião, os acertos foram maiores e depois da abertura, vimos muitos erros e quase nenhum acerto. Mesmo o Plano Real, sabemos que foi baseado em juros estratosféricos que se mantêm até hoje. Claro, se não fosse ele, estaríamos muito pior.
    Como estaria a nossa infraestrutura se não tivesse existido o governo dos militares?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: