EM NOME DA CLAREZA

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mario vitor rodrigues

Mario Vitor Rodrigues é publicitário, escritor, colunista de IstoÉ e blogueiro do Estadão. Já morou em Nova Iorque, Paris e Milão. No ano passado, 2016, neste mesmo mês de julho, escreveu um texto que chamou de “Eles venceram”, publicado no blog do Noblat. Leiam com atenção, pois vale a pena, e servirá como introdução ao artigo deste mês e ano, que virá abaixo (que expressão esquisita)!

Eles venceram (julho de 2016)
Dia desses, não faz muito tempo, me peguei praguejando pelos cotovelos em plena padaria enquanto esperava o frango ser embalado. A fila estava ínfima, nada de especial acontecera, não passava de um domingo como outro qualquer, e no entanto eu desfilava uma carranca de fazer gosto, digna de almanaque.
Se, afinal de contas, existia razão para tanto? Não só existia como persiste mas ainda assim levei um bom tempo flertando com o autoengano. Agora, porém, olhando em perspectiva, entendo perfeitamente o porquê da minha reação. Vamos combinar, quem hesitaria em se esquivar, assim, de supetão, ao constatar o próprio País fadado a viver dividido pelos piores motivos?
E a divisão em si não é um problema. Aliás, neste mesmo espaço já cansei de criticar a demonização do nosso debate político. E continuo afirmando, promove um desserviço irreparável quem dele faz pouco caso, seja tachando-o negativamente de Fla-Flu ou mesmo lamentando sua inegável crueza.
Inaudito, isto sim, para não dizer tolo, seria esperar discernimento e maturidade popular a respeito um tema histórica e sorrateiramente forjado para ser ignorado.
Ora essa, quantos Odoricos não foram eleitos até hoje, e ainda o são, graças ao discurso que celebra a “festa da democracia” mas escamoteia a obrigatoriedade do voto? E a quem interessa o voto obrigatório em um país acostumado a repetir que, além de futebol e religião, precisamente a política não se discute? Por fim, quem se beneficia da eterna tergiversação sobre a cláusula de barreira?
Negativo, o debate em si, por ferrenho que seja, está longe de ser um problema. Muito pelo contrário, deveria ter começado antes, estaríamos mais habituados a ele e capazes de travá-lo em outro nível.
O momento pede que por um momento deixemos de lado os vários bilhões escoados via corrupção, a roubalheira desenfreada e as chicanas morais. São todas inéditas, tanto no volume quanto na desfaçatez, e por este motivo promovem e ainda promoverão máculas indeléveis para o Partido dos Trabalhadores. Quanto à economia, cedo ou tarde, em algum momento, recuperará seu fôlego.
Doloroso mesmo, e como, é constatar que talvez o maior estrago promovido pelo PT, ao longo de todo este tempo, só agora começa a dar as caras: sua tenacidade pelo poder e a falta de escrúpulos conseguiu forjar em nossa sociedade indivíduos dispostos a ludibriar sem dó, a repercutir todo o tipo de mentiras, se preciso for, em nome de uma causa tão abjeta quanto defunta.
Das esquinas às redações de jornais e revistas, principalmente nestas últimas, não faltam sujeitos determinados a fazer este papel. Posam como paladinos da moral mesmo desconhecendo por completo o real significado do termo. Mentem, enganam, desconversam com a desenvoltura dos verdadeiros crápulas, e não é por acaso.
Caberia, agora, à parcela da sociedade responsável por desmontar o maior esquema de corrupção institucionalizada na história do Brasil, rechaçar estes indivíduos.
Se torço para quem sejam caçados como bruxas? Que sintam-se asfixiados, constrangidos na hora de exercer suas profissões? Rechaçados como párias, apontados nas ruas como figuras desprezíveis e que portanto devem ser evitadas? Claro que não.
Seria de uma burrice imperdoável transformar em mártires essa gente. Nada seria melhor para o espectro da nossa esquerda corrupta e fanática do que poder lançar a carta da vitimização.
Mas, então, o que fazer? Se repugná-los funcionaria como um tiro saindo pela culatra, e se estão espalhados por todos os grandes veículos, portanto com palco e megafone disponíveis, o que nos resta?
Com toda a sinceridade, não faço a menor idéia.


Desdobramentos da Narrativa (julho de 2017)
Comum a qualquer político que se sente ameaçado pela Justiça, o instinto de sobrevivência nunca falou tão alto em Brasília. Dessa vez, porém, com um agravo: são tantos os nomes, e tão intrincadas as alianças, que pasteurizar as críticas virou lugar comum. Pior ainda, não falta quem instrumentalize a insatisfação generalizada para esgueirar-se dos seus próprios pecados. Um bom exemplo disso aconteceu durante a semana que passou, com a prisão do ex-ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima. Alardeou-se por toda a imprensa e redes sociais o seu estreito relacionamento pessoal com Michel Temer e o fato de ele ter sido ministro do atual governo, mas nem todos ressaltaram suas passagens pelos mandatos de Lula e Dilma. Ou que sua prisão se deu por conta de crimes cometidos enquanto ocupava a vice-presidência da Caixa, entre 2011 e 2013, precisamente durante o período em que Dilma esteve no poder.
Idêntica estratégia foi adotada, diga-se, com Romero Jucá, hoje líder de Temer, mas também responsável pelas articulações durante as gestões petistas e inclusive na de Fernando Henrique Cardoso. Ora essa, o próprio presidente, cantado em verso e prosa como grande aliado do petismo até o afastamento de Dilma, é hoje repudiado como se fosse inimigo figadal de longa data. Vale dizer, ninguém se torna grão-mestre desse PMDB e aceita compor chapa com o PT por bom comportamento. Só por esse motivo, Temer e a trupe peemedebista já não mereceriam defesa. A verdade, entretanto, é que precisar os acontecimentos como são, não como os políticos, seus partidos e militantes gostariam que fossem, nada tem a ver com defender quem quer que seja. Trata-se, tão somente, de correção histórica. De tomar as precauções necessárias em um momento especialmente desalentador, propício para quem sempre está disposto a massificar narrativas.
Pois, sim, no que depender da esquerda reconhecida — Partido dos Trabalhadores, Rede, PSOL e adjacências — será exatamente essa a estratégia visando às próximas eleições: disseminar meias verdades de modo a encobrir episódios inconvenientes.
Não será algo inédito, uma vez que tal comportamento é usual na política, mas serão os primeiros a tentar fazê-lo enquanto ostentam um débito de 13 anos com o País. Oxalá que fracassem.
Não falta quem instrumentalize a insatisfação generalizada para esgueirar-se dos seus próprios pecados

 

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