UIVO DE PERDEDOR

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Dora Kramer

Vejam o texto de Euler de França Belém, do blog Jornal Opção: A brilhante colunista política Dora Kramer — goste-se ou não de seus artigos, mas são, quase sempre, incontornáveis — vinha sendo esvaziada no jornal “O Estado de S. Paulo”, o cada vez melhor “Estadão” (o jornalão dos Mesquita, e, diz-se, dos bancos, é o rei dos furos na cobertura da Operação Lava Jato e outras), desde a contratação de Eliane Cantanhêde. Mas, ao se tornar colunista da “Veja”, não saiu atirando; pelo contrário, demonstra uma elegância rara na imprensa patropi. Ela começou na revista da família Civita na primeira semana de fevereiro de 2017, segundo o site Comunique-se. Ela assinará uma coluna semanal. Mas seria muito bom vê-la, todos os dias, no site da publicação. Porque tem o que dizer e o faz muito bem…

Mas o propósito do post não é o Euler e sim a coluna de Dora. Peguei a imagem do blog, pois a fotinho dela em Veja não a favorece. Com o magnífico título supra, ela detona mais uma vez o novededos. Na coluna, ela diz que o país não pode funcionar em torno do eixo pró ou contra lula.


Possibilidades, e principalmente impossibilidades, jurídicas à parte, é no campo da política que se enquadra na presente análise a questão PT, pendurada que está nesse sonho de verão ora denominado candidatura de Luiz Inácio da Silva à Presidência da República em 2018.
E aqui o assunto não é tratado como algo referente à esquerda, porque os partidos desse campo ideológico há muito deixaram o PT de lado. O PPS percebeu os furos na canoa ainda no governo Lula; o PSOL surgiu da dissidência; Marina Silva abandonou o barco e foi cuidar da vida, criando a Rede; o PSB deu o fora ainda sob a batuta de Eduardo Campos; as demais legendas tradicionalmente abrigadas no guarda-­chuva do PT não influenciam no movimento das marés.
Alguns petistas ainda ensaiaram aderir à articulação de uma frente de esquerda com o intuito de elaborar um plano B à revelia de Lula. Percebendo que ali poderia ser plantada a semente da criação de uma nova legenda, concorrente e, sabe-se lá, substituta do PT no espectro partidário, o ex-presidente abortou o projeto e mandou que a tropa se recolhesse ao quartel.
Essa ideia surgiu no início do ano, quando os dirigentes já aguardavam uma decisão de Sergio Moro pela condenação de Lula. O tal do plano B subtrairia impacto e adesões ao planejado lançamento da candidatura à Presidência, marcado para quando fosse divulgada a sentença. Assim foi dito, assim foi feito. Mas termina por aí o alcance do planejamento petista. O lance de esconder o réu atrás do candidato põe Lula em evidência, mobiliza uma militância hoje sem causa, recheia discursos, mas não cria aquilo que dá substância a uma candidatura: expectativa real de poder.
Há mais embaraços que desembaraços no caminho de uma hipotética volta ao Planalto. Afora toda a complicação jurídica, que não é pouca, há obstáculos que vão bem além da enorme rejeição ao partido e seu “candidato”. Se houvesse campanha de verdade, haveria estratégia onde, na realidade, só existem movimentos improvisados e atabalhoados. A fragilidade política da empreitada se expõe logo na origem: candidato de verdade nunca assume essa condição com tanta antecedência. O próprio Lula sempre que concorreu fez o jogo do vai não vai até ter uma estrutura minimamente segura de financiamento, propostas, propaganda, organização partidária e rede de apoios. Uma base de lançamento agora inexistente.
Reunir convertidos em atos públicos organizados por centrais sindicais, em que, além do “fora Temer”, do fora reformas e da convocação de eleições diretas já, se levanta a bandeira de que a eleição de 2018 não valerá sem a presença de Lula, não constrói uma candidatura nem significa uma demonstração de força. Ao contrário, evidencia a falta de consistentes armas de combate e apelo ao alvoroço, o último recurso dos fracos.
Imaginar que o eleitorado cairá de novo na lenga-lenga do herói injustiçado é não perceber que as coisas não são como o PT quer, mas como a maioria espera que elas sejam num país que não funciona girando em falso em torno do eixo de um homem só.
Publicado em VEJA de 26 de julho de 2017, edição nº 2540