SE O COMUNISMO CONSEGUIU MANTER NA MISÉRIA METADE DA ALEMANHA DURANTE 44 ANOS…

Percival Puggina – 30.08.2017

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Percival Puggina


 Os venezuelanos pedem socorro. Não, não são todos. Lá, como em quaisquer regimes totalitários, graças à fé doentia nas lideranças revolucionárias ou aos favores que recebe ou espera receber do Estado, parte considerável da população está alinhada com a ditadura. Os que a ela resistem se defrontam com as forças militares e com as milícias armadas pelo regime.

Pobre povo venezuelano! Foge pelas fronteiras e conta mortos nas ruas. Tudo se passou como se uma velha garrafa jogada do malecón habanero em meados do século passado, houvesse atravessado o Mar das Caraíbas, arribado no pedregoso litoral venezuelano e ali se quebrado, espargindo uma torrente de maldições semelhantes às que se abateram sobre Cuba. Sim, porque quase tudo na Venezuela segue o funesto ritual cubano: crescentes restrições às liberdades políticas, manipulações eleitorais, cerceamento da oposição e prisão de dissidentes, intervencionismo estatal, tabelamento de preços, sucateamento do parque produtivo, escassez. E, desde 2013, a versão bolivariana, eletrônica, da libreta de racionamento. Quando esta começou em Cuba, no ano de 1963, foi muito mal recebida pela população. Era uma forma de proporcionar, a um povo que empobreceu rapidamente após a revolução, alimento subsidiado em quantidades mínimas. Passados 54 anos, o Estado cubano continua se apropriando da totalidade da renda nacional e remunerando a população em servidão com salários mensais que apenas compram três quilos de leite em pó. A libreta se adelgaçou a menos da metade do conteúdo original, mas os cubanos reagem às propostas para extingui-la, porque “con la libreta nadie puede vivir, pero sin la libreta hay mucha gente que no puede vivir”.

Diferentemente de Cuba, a Venezuela era rica, petroleira, membro da OPEP. O comunismo, que afundou a economia cubana em três anos, levou 17 para arruinar o país. Mas nada é impossível a esse ogro político-ideológico. Se o comunismo conseguiu manter na miséria metade da Alemanha durante 44 anos, não seria uma republiqueta bolivariana que haveria de resistir a seu poder de destruição.

Os venezuelanos estão famintos. Matéria da United Press International em fevereiro deste ano informou sobre uma pesquisa desenvolvida por três universidades venezuelanas (Universidade Central da Venezuela, Universidade Católica Andrés Bello e Universidade Simão Bolívar). Os resultados foram assustadores! Em meio à crise de alimentos e medicamentos, a população perde peso em proporções alarmantes. Um milhão de estudantes abandonaram a escola.

or quê? Blackouts, greves, fome. A renda de 82,8% dos venezuelanos os classifica como em estado de pobreza. O FMI estima que a inflação do país atingirá 1600% no corrente ano e a Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe avalia uma redução de 4% no PIB nacional.

Matéria do El Nacional do dia 16 de agosto passado mostra que se repete na Venezuela um fenômeno generalizado no comunismo: até as vacas param de dar leite e a população apela para éguas e cabras. A falta desse produto agrava a mortalidade infantil por desnutrição e doenças digestivas.

Nesse cenário é impositivo perguntar: para onde se deve mover a sensibilidade de uma pessoa com senso de justiça e humanidade? Claramente, é o sofrimento da população que nos deve condoer. Em instância mais remota, será a ruína de um país vizinho e sua tragédia perante a história. Mas, para isso, é preciso ter senso de justiça e humanidade. Os dirigentes e militantes dos nossos partidos de esquerda (PT, PCdoB e PSOL) olham para a realidade venezuelana e, entre o sofrimento da população sob seu governo comunista, ficam com o governo, apoiando-o para que ponha mais lenha no braseiro do inferno que criou.


* Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

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COMENTANDO A MANCHETE

Comentando a manchete (1)

Globo, 31/08

Por decisão do TCU, o ex-presidente da Petrobras José Gabrielli e o ex-diretor Nestor Cerveró terão que devolver US$ 79,9 milhões à Petrobras pelos desvios em Pasadena.

(Gil) Só esses dois entram de cabritos expiatórios? Não esqueceram alguma cabra? Ou bode?


Políbio Braga, 30/08/2017, sobre matéria do Estadão (2)

Joesley Batista mostra provas das propinas que pagava para Lula e Dilma (link no título).

Dupla que recebe 150 milhões direto em conta pode escolher a maneira de fugir do País. Ou de interferir na aplicação da justiça. Ou não? Se propina confirmada, é urgente o bloqueio e a prisão preventiva. 


CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

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A edição de Veja, de 23 de agosto, me prestou um grande serviço. Dois artigos supimpas sobre civilização. O primeiro, de Fábio Altman, fala do conceito do filósofo francês Michel Onfray, em seu livro Décadence, um sucesso atual e ainda não traduzido, uma ideia incômoda, em que a civilização judaico-cristã, esta na qual vivemos, tem seus dias contados. E ele diz saber o que virá depois.
Já o segundo artigo, do crítico Joel Pinheiro da Fonseca, ele compara dois pensadores, o francês Onfray, do primeiro artigo, e o inglês Roger Scruton, mostrando que esses dois concordam em um ponto – o Ocidente vai mal. Mas o francês acha que a fé é um problema, e o inglês, que ela é solução.
Ambos os textos escritos por quem sabe escrever, são muito intensos. Não deixem de ler.


DECADÊNCIA SEM ELEGÂNCIA
Estereótipos são sempre preconceituosos, imprecisos e reducionistas — enganam e, ardilosamente, colam-se à imagem de uma pessoa, de um lugar, de um momento. Há o galanteador italiano, embora evidentemente nem todos o sejam. O argentino arrogante. O lorde inglês. O brasileiro esperto. Ah, e o intelectual francês, essa figura típica que, apesar dos clichês, ajuda a desenhar a cara de seu país. Trata-se de ideia preconcebida, mas decisiva e celebrada na construção de uma cultura afeita ao esporte de pensar. Há linhas de todo tipo, para todos os gostos: de esquerda, de direita, estruturalista, existencialista, construcionista, desconstrucionista — a variedade de igrejinhas é imensa. Os mais celebrados intelectuais são tratados como estrelas do horário nobre, e não têm medo de se comportar como pop stars numa sociedade que transforma debates de literatura em programas de auditório — embora, sejamos honestos, já se ponha até Neymar na primeira página de um jornal vetusto como o Le Monde.

Na França, a busca por um intelectual que sirva de consciência da nação é incessante. O nome incontornável, hoje, é Michel Onfray (lê-se Onfré), de 58 anos. Aos 28, ele infartou e, no leito de recuperação, escreveu o primeiro de seus mais de oitenta livros. O Ventre dos Filósofos — A Crítica da Razão Dietética é um divertido passeio pela cabeça de grandes pensadores a partir do que levaram à boca. Ficou famoso e não parou mais (é figura carimbada nas TVs, nas rádios, no YouTube, no Instagram, no Twitter etc.). Autointitula-se hedonista, materialista e ateísta. É um tantinho de esquerda, portanto não é marxista clássico. Seu mais recente petardo — tem 650 páginas, do tamanho de sua ambição —, o segundo volume de uma trilogia chamada de “breve enciclopédia do mundo”, é Décadence (Decadência), com mais de 120 000 exemplares vendidos na França (leia resenha). A tese central é simples: a civilização judaico-cristã, esta na qual vivemos, está perto do fim, vai acabar como acabaram outras civilizações transformadas em escombros de cartões-­postais, como o Coliseu do Império Romano.

E vai terminar, segundo Onfray, porque foi erguida sobre areia movediça. Nas palavras do pensador: “A civilização judaico-cristã se constrói sobre uma ficção: a de um Jesus que não terá jamais tido outra existência senão alegórica, metafórica, simbólica, mitológica. Não existe desse personagem nenhuma prova tangível no seu tempo: com efeito, não se conhece nenhum retrato físico dele, nem na história da arte que lhe seria contemporânea, nem nos textos dos Evangelhos, nos quais não se encontra descrição alguma do personagem. (…) Essa ausência de corpo físico real parece prejudicar um exercício racional conduzido de forma correta. No entanto, é com base nesse puro delírio que se construirá o pensamento ocidental judaico-cristão”. Onfray vai ainda um pouco mais longe: “Uma civilização não produz uma religião, é a religião que produz a civilização”.

A desconstrução da “fábula” de Jesus levou Onfray a virar tema quente nas mesas dos bistrôs — “como assim, Jesus nunca existiu?” —, e nesse bate-­boca ele se diverte, sempre muito à vontade com as provocações. Não bastasse essa conclusão explosiva, a do fim de nossa civilização, a da decadência sem elegância, com um lobão à espreita, ele ainda nomeou o grupo político, ideológico e religioso que muito provavelmente sucederá ao atual: o Islã. Os muçulmanos serão os vencedores porque, escreve Onfray, “as bombas atômicas do Ocidente nada podem contra um jovem jihadista decidido a morrer”. É tese incômoda, e por isso mesmo contagiosa, que pôs Onfray como o mestre de um movimento que, agora neste ano, pela primeira vez entrou no dicionário Larousse na forma de substantivo até então inexistente: o declinismo, ou déclinisme, em francês, termo pejorativo que designa uma corrente de ideias para a qual a França está em declínio inexorável. O declinismo é o sentimento da moda na França, e Onfray o seu mentor. Instado a comentar seu campo de raciocínio, evitando ser líder de qualquer coisa, ele se defende: “Décadence não é otimista nem pessimista — mas trágico porque, agora, não se trata de rir ou chorar, mas de compreender.


A CRISE DAS CRISES
Os opostos se tocam, ainda que (ou talvez porque) caminhem em direções contrárias. Vivemos o fim, os últimos suspiros, de nossa civilização? Vozes à esquerda e à direita o afirmam. O Ocidente — a civilização cristã (ou judaico-cristã), a Europa das catedrais e sinfonias e suas filhas no Novo Mundo — encontra-se em franca decadência, tendo perdido as crenças que o sustentaram no passado. Contra bárbaros externos e internos que o atacam, está armado apenas de dúvidas e indecisão. Não há nada no estado atual do mundo que demande de nós esse tipo de leitura. A história recente teve muitas outras crises que pareciam prenunciar o fim. Sempre existiram medos apocalípticos e, crise por crise, aquelas que vivemos agora (econômica, política, cultural) não parecem particularmente graves. Mesmo assim, há um clima de mal-estar em certos círculos.

Michel Onfray é a voz mais radical na França a falar do declínio do Ocidente. Em seu livro mais recente, Décadence, lançado neste ano e ainda não traduzido para o português, ele narra o que seria a biografia da civilização cristã: seu nascimento no Império Romano, sua conquista do poder, seu apogeu medieval e o lento declínio desde então. Em geral, associamos a ideia de decadência civilizacional ao pensamento conservador. O fim da civilização, para o conservador, é motivo de tristeza. Não para Onfray. Sua narrativa do crescimento do cristianismo é uma narrativa de como a neurose, a violência e a dominação venceram e se consolidaram sobre a sanidade, a paz e a liberdade. Mais do que na figura quase incognoscível de Jesus, o cristianismo foi erguido pelo zelo apostólico e pela neurose anticorpo de Paulo e pela astúcia totalitária do imperador Constantino.

Tudo o que veio dessa raiz, seja a produção intelectual (teologia, universidades, arte), sejam ações práticas (Cruzadas, Inquisição, legislação), é marcado pelo desejo de dominar a população e instilar o ódio ao corpo e a esta vida. Mesmo quando negava a religião cristã — como na Revolução Francesa ou na União Soviética —, nossa civilização jamais fazia outra coisa senão reafirmar seu desejo de controle e sua filosofia idealista. Para completar o rol de maldades, a coroação da civilização cristã foi o Holocausto nazista, o desabrochar do antissemitismo que fez parte de sua essência desde as cartas de Paulo. E não seríamos particularmente piores do que os outros. A diferença para o Islã, por exemplo, é apenas que nele foi tudo mais intenso e mais rápido. As funções de Jesus, Paulo e Constantino foram desempenhadas por uma mesma pessoa: Maomé. Apesar de sua inegável decadência, o mundo islâmico ainda acredita na verdade que carrega e está disposto a fazer o que os cristãos não mais ousam: matar em seu nome. Nosso niilismo nada pode contra o fervor muçulmano, diz Onfray.

O autor recheia seu livro de anedotas e pensadores obscuros, tornando a leitura gostosa e muito instrutiva. Ao mesmo tempo, é tudo escolhido sob medida para contar a história que ele queria contar. Não há a menor tentativa de adicionar complexidade à trama. Por exemplo: a Inquisição não representava, ao mesmo tempo que uma violência contra a liberdade de crença, um avanço sobre o justiçamento da turba enraivecida sobre o herege? Seus métodos de tortura, chocantes para os padrões atuais, não eram menos brutais que os métodos comuns aplicados pelos governos da época? O Estado romano pagão não foi tão intolerante quanto à Roma cristã? Não espere esse tipo de nuance. O que salva Onfray de ser apenas mais um pregador é o bom humor com que monta sua narrativa. Ainda assim, no campo das ideias ou da historiografia, não tem o menor rigor; ele constrói um mito.

Do outro lado do Canal da Mancha e do espectro político, ideológico, filosófico e mesmo espiritual está o pensador conservador inglês Roger Scruton. O tema do declínio civilizacional é lugar-comum em sua obra, embora ele não partilhe da verdadeira celebração de Onfray perante o espetáculo. Ao olhar para o nosso passado, Scruton encontra muito que gostaria de preservar. E, embora não advogue um retorno reacionário a formas antigas, gostaria de resgatar aquilo que Onfray vê como irremediavelmente perdido: a fé. Mas haverá lugar para ela em um mundo cada vez mais desvendado pela ciência? Esse é o tema de A Alma do Mundo, livro de 2014 recentemente publicado pela Record.

O mundo visto apenas pelas lentes da ciência, diz Scruton, perde tudo aquilo que faz a vida valer a pena. Nossos relacionamentos, nossa contemplação da natureza, nosso fruir da arte, todos dependemos de algo que não se reduz aos átomos que nos compõem: dependemos de significados que atribuímos às coisas. O valor de uma pessoa está em ela ser algo além de sua carne; algo que nunca propriamente tocamos, apenas vislumbramos no rosto, mas sentimos que está lá. Em última análise, é o que indagamos ao mundo: não teria o universo um significado maior do que nós? Que é a mesma coisa que perguntar se, por trás desse rosto cósmico, há um alguém. Já estamos às portas da fé.

A fé de Scruton tem seu charme, mas ela é acima de tudo uma atitude pessoal — um abrir-se ao mundo de significados humanos —, e não a crença literal numa verdade que está além da razão. Tanto é assim que Scruton estende sua fé mesmo a agnósticos e ateus. Ela tem pouco a ver com a fé de milênios atrás: a crença no que pareciam ser histórias da carochinha sustentada por homens adultos que chocava os filósofos pagãos antigos. Foi a força desse tipo de crença que originou uma nova civilização e causou uma verdadeira revolução na ordem social e no pensamento, com todos os seus erros e acertos.

Bom, mas, se for mesmo o fim, qual o próximo passo: o que vem depois do Ocidente? Onfray vê duas possibilidades. Uma é a mesma predita por seu conterrâneo Michel Houellebecq no romance Submissão: o domínio da Europa pelos muçulmanos. E aí teremos mais alguns milênios de barbárie.

A segunda é o advento da civilização transumanista, que supera a história e mesmo o caráter geográfico da vida humana e nos leva a um novo tipo de existência. Um rasgo de otimismo tecnológico? Nada disso. Para Onfray, os protótipos desse novo mundo foram desenhados pelos romances Admirável Mundo Novo e 1984, e serão formas de opressão muito maiores do que as que a humanidade jamais viveu ou sonhou. Sendo assim, talvez atrasar um pouco esse processo e lutar, com a fé de Scruton, para preservar o que soubemos construir de bom (ainda que imperfeito) não seja má ideia.