DEMOCRACIA

magu

Bolívar Lamounier

Quase sempre me surpreendo com o texto de Bolívar Lamounier, esse que é um dos cientistas políticos mais reconhecidos do Brasil; mineiro de Dores do Indaiá, ele é sócio-diretor da Augurium Consultoria. É autor e organizador de diversos livros como “A Classe Média Brasileira: ambições, valores e projetos de sociedades” (Ed.Campus,2009); “Os Partidos e as Eleições no Brasil” (Editora Paz e Terra,1975), co-autoria com Fernando Henrique Cardoso; e “Brasil e África do Sul : Uma Comparação” (Editora Sumaré, São Paulo,1996).

Seu blog é publicado no site da revista “Exame”. Foi o primeiro diretor-presidente do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (IDESP). É membro da Academia Paulista de Letras. Bacharel em Sociologia e Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado em Ciência Política pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

A matéria que vou publicar saiu na revista Isto É nº 2536, de 20 de julho, e o título é muito, mas muito interessante.


ESTARÁ A DEMOCRACIA ACABANDO – NOVAMENTE? Os principais jornais e revistas do Primeiro Mundo andam meio obcecados com o tema do “fim da democracia”. Entra dia, sai dia, algum deles sentencia que o princípio da representação política parece esgotado. Mas, claro, esquiva-se de explicar qual será a alternativa.
Dediquei algumas páginas a esse tema no capítulo 2 de meu livro “Liberais e antiliberais” (Companhia das Letras, 2016). Mostrei que essa linha de argumentação aparece já bem configurada nas primeiras décadas do século 20, e reaparece de forma cíclica, praticamente nos mesmos termos.
No momento atual, não se requer muito esforço para perceber que, de fato, existe um mal estar mundial. A tecla da morte da democracia é martelada por toda parte, e os adeptos dessa tese geralmente nem se dão ao trabalho de ressaltar que o mal estar é geral, mas suas causas não são idênticas de um país a outro.  Como também não são idênticos os setores ideológicos e partidos que propagam tal ideia.

Na edição anterior de Istoé, foi a vez do sociólogo Manuel Castells, professor da Universidade da Califórnia, Berkeley. Castells é um analista fino, que maneja muito bem os dados da realidade, e por isso merece ser lido com atenção. Esquematicamente, o que ele diz é que as democracias estão se autodestruindo por causa da corrupção.  Não sei se o que o levou a explorar esse tema foi principalmente a atual situação brasileira, mas pergunto: a corrupção está acabando com a democracia brasileira? Pode ser que sim, pode ser que não.  A afirmação contrária me soa igualmente plausível. Podemos perfeitamente sustentar que, nesse aspecto, a democracia nunca mostrou tamanho vigor em nosso País. Um de nossos maiores empresários passou dois anos na cadeia, um ex-presidente, já condenado em segunda instância, está recluso há mais de cem dias, e os demais que se encontram na mesma condição representam quase todo o espectro partidário. Pela primeira vez em nossa história, podemos dizer que o regime democrático já não se resume à realização de eleições periódicas. Está chegando àquele estágio em que transparência e accountability (a devida responsabilização penal dos infratores) entram efetivamente na equação.  Não sou ingênuo. Sei que nem todos os habitantes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal morrem de amores pelos avanços em curso. Mas, vistos em conjunto, creio que tais avanços são irreversíveis.


Pena que usou pouco espaço para um tema que mereceria várias laudas. Mas não podemos esquecer que uma revista semanal não dispõe de tanto espaço assim. Mas como eu não estou limitado pelo espaço de publicação, vou aproveitar para outro texto dele.

BRAVOS DEFENSORES DO ENSINO PÚBLICO
Outro dia vi na internet uma foto pitoresca: cadeiras empilhadas até o teto, sem nenhuma ordem. De imediato, não consegui atinar com a finalidade daquilo, mas depois vim a saber que a foto fora clicada na Faculdade de Filosofia da USP, e que o monte de cadeiras — chamado “cadeiraço” — é uma nova modalidade de arruaça desenvolvido por grupelhos radicais para impedir o acesso dos professores às salas de aula. Os professores da Faculdade divulgaram um manifesto, protestando, com a devida veemência, contra as agressões de que frequentemente são alvo.

Práticas como essa surgem todo ano e confesso que tenho dúvidas quanto à utilidade de comentá-las. Acontece, infelizmente, que estamos falando da USP, a principal universidade brasileira. Quem a frequenta, ou teve oportunidade de lá estar alguma vez, sabe que o campus é magnífico, tão bonito e adequado a suas finalidades como o de muitas das melhores universidades do mundo. Acrescente-se que os estudantes lá admitidos recebem um benefício extraordinário, o de fazer seus estudos superiores sem pagar um décimo de um real. Sim, porque, como todos sabemos, a USP é uma universidade pública, portanto gratuita. Gratuita tanto para filhos de famílias ricas, de alta renda, como para pobres, filhos da pequena classe média ou de pais efetivamente pobres, mas ninguém ignora que entre os lá admitidos a proporção dos primeiros é muito maior que a dos segundos.

Não sei se os estudantes mais propensos à arruaça são principalmente os mais ricos ou mais pobres. Mas proponho uma hipótese. Quem fizer um levantamento entre os pais dos vinte por cento mais ricos provavelmente constatará que eles trocam de carro todo ano. Que não abrem mão de pelo menos uma viagem anual a Miami ou a Nova York. E que concordam inteiramente com o princípio da gratuidade. Resistem bravamente contra toda proposta de reformar o ensino superior brasileiro no sentido de torná-lo menos injusto. Muitos provavelmente se consideram “de esquerda” ou “marxistas”, mas sempre passaram batido sobre uma observação feita por Marx na “Crítica ao Programa de Gotha”, obra de 1875, onde ele diz que o ensino superior gratuito é uma forma escandalosa de privilegiar a burguesia com recursos extraídos de toda a sociedade sob a forma de tributos.


Devo prestar minha homenagem a tão atilado cientista político, pois apesar d’eu ser avesso a qualquer tipo de esquerdismo, socialismo ou comunismo (o étimo italiano para esquerda é sinistra, um verdadeiro achado), preciso confessar que eu também passei batido que essa repudiada figura tinha escrito uma frase tão respeitável e profunda (em negrito no parágrafo anterior).

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OS INQUISIDORES

Recebido pelo Zapzap

O dia em que ex-guerrilheiro, militantes e desarmamentistas tentaram fuzilar Bolsonaro

A situação bizarra: entrevistadores se transformaram em inquisidores de Bolsonaro.


Claudia Wild
Claudia Wild

Não, não foi uma sabatina. E, definitivamente, não foi uma entrevista! Foi um convescote entre marxistas engajados na causa e um homem odiado que não poderia entrar no ‘Clube dos Iluminados’.

Ali estava a estupidez ideológica sobrepondo ao dever profissional do jornalismo, que é informar a verdade dos fatos para que o cidadão forme sua opinião.

O que se viu no Roda Viva, ontem, foi um clássico exemplo do jornalismo militante brasileiro. O jornalismo que perdeu completamente a vergonha de mostrar a que veio, para quem trabalha e o que pretende manter.

A começar pela escolha da bancada: todos militantes, defensores declarados da causa socialista. De ex-guerrilheiro do MR-8 até órfão choroso de Fidel Castro.

Não fizeram perguntas, apresentaram libelos acusatórios sem direito ao contraditório: “racista, fascista, homofóbico, defensor da tortura”, ou era “ista”, ou era o “óbico”. Abusaram de afirmações rasteiras já devidamente esclarecidas pelo entrevistado em outras oportunidades. Não fizeram uma única pergunta relevante, inteligente. Sabem por quê?

Porque o Brasil não interessa O que importa é a manutenção da ideologia que defendem. Foi o ‘conversê’ politicamente correto dos aduladores de Fidel Castro, que se dizem preocupados com a democracia nacional; com as minorias ( massa de manobra ); com a superação da “terrível” ditadura militar; com a dívida histórica e outros temas tão amados pelos engajados militantes do jornalismo.

Não houve preocupação com os planos de governo, suas estratégias para enfrentar os enormes problemas da nação. Ninguém se mostrou indignado com os 14 milhões de desempregados, com os mais de 65 mil homicídios anuais, com a péssima educação nacional, com a sofrível saúde pública, com a farta bandidagem armada; com o nefasto aparelhamento estatal; com a falta de saneamento básico para quase metade da população do país, com o peso dos impostos escorchantes, com o tamanho do Estado, com a dívida interna etc. O importante foi acusar, inventar e repetir mantras & mentiras para que eles se tornassem, talvez, verdades e, assim, consigam “abater” o candidato em pleno voo.

O que se viu foi um show de imaturidade, mediocridade e parvoíce. Apresentaram um nível subginasiano de interpretação de palavras, de um inacreditável pré-analfabetismo. Transbordaram sangue nos olhos e uma soberba descomunal! Uma arrogância que tentava desmerecer, humilhar o acusado, digo entrevistado. O candidato saiu-se muitíssimo bem diante da situação bizarra onde entrevistadores se transformaram em inquisidores.

O convescote mostrou ainda que a mídia não está em sintomia com os anseios de uma maioria exausta de tudo que deu errado no país. Ele deixou claro que, a mídia mainstream não percebe o quanto é arrogante em não respeitar um homem patriota, que deu voz a milhões de brasileiros. Fosse ela inteligente e olhasse além de seu próprio e dilacerado umbigo, tentaria compreender o que se passa no Brasil da atualidade. Mas, não! Ela prefere continuar em sua empáfia para iludir-se na continuidade da manipulação das massas, tal qual o bêbado que crê na sua sobriedade.

Ademais, o jogo que se propuseram a jogar apenas encurtará o caminho de Jair Bolsonaro até seu objetivo. Escolheram a mentira para enfrentar os fatos. Escolheram o ataque baixo, achando que a defesa não será utilizada, pois acostumaram-se com as dóceis ovelhas nas mãos de seus algozes. Mal sabem eles que os tempos mudaram. Que não são mais os donos da informação e da formação da opinião.

Assim, a lamentável hostilidade só teve um vencedor: o Capitão. Provavelmente, nenhum outro candidato sobreviveria politicamente ao que Bolsonaro sobreviveu. A situação fez dele um candidato mais forte, e, para o desespero de militantes, ex-guerrilheiros e defensores da democracia cubana… Em uma disputa limpa, ele será praticamente imbatível. Tentaram um fuzilamento com balas de festim.

PLEBISCITO ?

magu

elio gaspari

Ficou muito interessante ler a coluna de Elio Gaspari no jornalão O Globo, edição virtual do domingo, 29 de julho. Dividida em tópicos, como a coluna do Carlinhos Brickmann, chamou minha atenção pelo étimo ‘plebiscito’. Como é que é? Bem, vamos deixar o autor explicar.


O PT e Ciro no golpe do plebiscito

Ciro Gomes e Rui Falcão avisaram que, caso vençam as eleições, vão convocar um plebiscito ou um referendo para ratificar suas propostas
Ciro Gomes e Rui Falcão, ex-presidente do PT, avisaram que em suas plataformas está a convocação de um plebiscito ou de um referendo para ratificar suas propostas caso vençam as eleições de outubro. Ciro defendeu a convocação desse mecanismo para decidir o destino de um projeto de reforma da Previdência. Dias depois, Falcão falou em “reverter as reformas desastradas do Temer por plebiscito ou referendo”. (Num plebiscito os cidadãos escolhem uma entre várias alternativas. Num referendo, aprova-se ou rejeita-se uma proposta.)
Quando deputado, o petista José Dirceu apresentou um projeto propondo que os acordos para o pagamento da dívida externa fossem submetidos a um referendo popular. Diante da perspectiva de poder, o comissariado fez a “Carta aos Brasileiros” e mudou de assunto. Desde 2001 Ciro Gomes defende a realização de plebiscitos, inclusive para decidir a questão previdenciária. Ele chamava essa girafa de “terceiro turno”.
A ideia de uma consulta popular direta logo depois de uma eleição presidencial é um golpe demagógico. Seu objetivo é o emparedamento do Congresso. Esse truque fez o gosto de Hugo Chávez na Venezuela e deu no que deu. No Brasil de 2018 o pescoço da girafa cresce quando se vê que os candidatos estão costurando alianças com partidos devastados pela Lava-Jato.
Trata-se de um jogo de “perde-perde” para o regime democrático, pois ao seu final haverá um presidente imperial esmagando um Parlamento cuja “caciquia” Ciro Gomes cortejou em busca de tempo de televisão. Uma pessoa disposta a votar em Ciro pode achar a ideia boa. E se o poste de Lula ganhar a eleição?
Se um candidato tem o que oferecer, poderá fazê-lo durante a campanha que começa daqui a pouco. Se der, deu. Se não der, não deu (Grifo por conta do Magu).

 

As vivandeiras querem Bolsonaro

Um pedaço do andar de cima que desfila na tropa de Jair Bolsonaro não quer escolher um presidente da República. Quer um golpe parecido com o de 1964, aquele que colocou cinco generais na Presidência da República. Em 1984, quando a ditadura agonizava, quase todas as vivandeiras que aplaudiram as extravagâncias do poder militar aderiram à campanha de Tancredo Neves e varreram para os quartéis o entulho do regime.
A plateia que ouviu Bolsonaro na Confederação Nacional da Indústria durante uma hora viu que estava diante de um candidato compreensivelmente nervoso e incompreensivelmente desconexo. Vago ao expor sua plataforma econômica, o candidato citou o evangelista João — “conhecereis a verdade e ela vos guiará” — e, em seguida, guiou a audiência para a questão ambiental de Roraima. Adiante, informou: “Estamos entregando a mina de nióbio ao chinês.” Referia-se à mina da Anglo American de Catalão (GO). (Em fevereiro, em Hamamatsu, Bolsonaro prometeu trabalhar em parceria com japoneses para a exploração do nióbio brasileiro.)
Reforma trabalhista? “É remendo novo em calça velha”. Não se pode saber o que isso significa, mas a plateia não reagiu.
Num breve momento o candidato deu uma pista. Mencionando que ele temeu um eventual crescimento da esquerda, disse: “Aí acabou qualquer esperança de mudarmos o Brasil pelas vias democráticas, que tem que ser.”
Desde 1985 o Brasil está numa via democrática e Bolsonaro, com seus sete mandatos, é uma prova disso. O candidato de hoje não repete o deputado que há dez anos, diante de uma manifestação hostil, disse que o “grande erro” da ditadura “foi torturar e não matar”. O Brasil deve ao marechal Castelo Branco a exposição das “vivandeiras alvoroçadas” que, desde 1930, rondam quartéis. Elas ainda estão por aí.

 

Lula e Pertence

O advogado Sepúlveda Pertence pode ser um ícone da advocacia nacional, mas perdeu o passo quando tentou tirar Lula do regime fechado em que vive, pedindo que lhe dessem o refresco da prisão domiciliar.
Para polir sua estratégia de vitimização, Lula até que gostaria de ser fotografado com as algemas que a Polícia Federal pôs em Sérgio Cabral.
Na mesma linha, a esdrúxula ordem de soltura dada pelo desembargador Favreto foi brindada pela caótica movimentação do desembargador Gebran e do juiz Sergio Moro, que estava de férias.

 

Madame Claude

Saiu nos Estados Unidos o livro “Madame Claude – Her Secret World of Pleasure, Privilege and Power”. É mais uma tentativa de exposição do “mundo de prazer, privilégio e poder” da famosa cafetina francesa. Entre 1957 e 1977, enquanto ela operou em Paris, seu telefone era um dos maiores símbolos de status da elite internacional.
O magano (*) ficava no hotel Ritz, fazia suas compras na Hermès, jantava no Maxim’s e ligava para Claude.
O autor do livro, William Stadiem, já revirou os lençóis de Marilyn Monroe e Frank Sinatra. Ele conversou longamente com Fernande Grudet (o verdadeiro nome de Claude) quando ela abandonou o negócio, apanhada pelo fisco. Da narrativa de Stadiem resultam os suspeitos de sempre: o bilionário Gianni (Fiat) Agnelli, o barão Elie Rothschild e os dois maridos de Jacqueline Bouvier (John Kennedy e Aristoteles Onassis). O xá do Irã era atendido por uma ponte aérea que fazia a rota Paris-Teerã.
A clientela brasileira de Claude escapou da grelha de Stadiem.

 

Alckmin e o MDB

Pelo andar da carruagem, depois de conseguir o apoio do centrão (com todas as suas obras e todas as suas pompas), Geraldo Alckmin vai buscar a desistência de Henrique Meirelles, do MDB.
Madame Natasha oferece uma licença para criar sindicato a quem souber o que significa “centrão”.

 

Gatos por lebres

Paulo Francis desconfiou de Daniel Ortega quando soube que ele comprava óculos de grife. Parecia preconceito com o jovem guerrilheiro sandinista que derrubou a ditadura da família Somoza na Nicarágua. Passaram-se 40 anos e, sem óculos, o septuagenário Ortega, eleito três vezes para o cargo, reprime manifestações populares durante as quais já morreram 300 pessoas. Sua mulher é a vice-presidente, um de seus filhos dirige uma estatal, e outros três controlam canais de televisão.

No centenário do nascimento de Nelson Mandela, o estadista sul-africano, sua lembrança é um refrigério para as gerações que se encantaram por líderes românticos. Quem comprou os barbudos cubanos herdou a ditadura dos irmãos Castro. Na geração seguinte, o aiatolá Khomeini capturou a imaginação de quem detestava o xá do Irã. No seu lugar, instalou-se um regime muito pior. Isso, para não se falar no Zimbábue de Robert Mugabe, nem na cleptocracia do MPLA de Angola.

Hoje, noves fora a dinastia dos Ortega, está aí a frágil e doce Aung San Suu Kyi, atual presidente de Mianmar. Depois de 15 anos de prisão domiciliar imposta pelos militares, ela ganhou o prêmio Nobel da Paz e assumiu o governo do país. Deu em quase nada. Os militares continuam mandando, e foi negada a cidadania à minoria étnica dos muçulmanos rohingya. Setecentas mil pessoas já fugiram do país.


(*) – Magano – Malicioso, que sabe enganar; pouco escrupuloso.