DESORDEM

magu

monica de bolle

Monica Baumgarten de Bolle é PhD em Economia, pesquisadora sênior do Instituto Peterson para a Economia Internacional; professora na Universidade John Hopkins e ex da PUC-Rio, além de ter sido macroeconomista do FMI. Especialista do Instituto Millennium, autora do livro Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma (a que infelizmente vai ser eleita senadora pelos tolos mineiros – ressalvo meu parceiro Gil, meu amigo Hélio e o Washington, que anda aulando em Belô). O livro dela baixei no meu Kindle e pretendo ler logo. Ela escreveu o texto abaixo publicado no Estadão e no blog do Instituto Millenium.


UMA SENSAÇÃO GERAL DE DESORDEM
Começa com um ponto de cegueira no centro do campo visual, geralmente em um olho apenas – ou mais marcante em um dos dois olhos. Em seguida, transforma-se numa meia-lua cintilante de bordas irregulares que se alarga aos poucos e se move lentamente para a periferia do campo visual. Não há dor, apenas o incômodo de ver algo que lá não está. Quando a meia-lua em zigue-zague está prestes a sumir, ela brilha com força, prenunciando a agonia pulsante, geralmente em um dos lados da cabeça. Durante a aura, ainda é possível espantar a enxaqueca com um forte analgésico. Contudo, uma vez instalada a dor que a sucede, tudo está perdido.

O título desse artigo faz referência ao primeiro livro do neurologista e escritor Oliver Sacks, falecido em 2015. Trata-se de meu favorito em sua vastíssima e erudita obra por abordar um mal que afeta tanta gente.
Queria poder dizer que o Brasil ainda está nesse preâmbulo das auras, que ainda dá tempo de frear a agonia. Não é o caso. Entre o voto de Fachin no TSE, o incêndio que destruiu o Museu Nacional, rumores sobre mais greves de caminhoneiros, e o tempo de TV que se inicia, vejo a desordem instalada. O ministro do TSE e do STF usou um conselho de peritos externos ligado à ONU como justificativa para seu voto a favor da candidatura do ex-presidente Lula.

Nesses tempos em que ninguém mais se interessa por buscar fatos, o conselho virou sinônimo da organização internacional na cabeça de muitos, inclusive na dos oportunistas que querem ver na vitimização de Lula motivos para atiçar a balbúrdia da campanha eleitoral. Entre esses há quem apoie o PT e quem se posicione como anti-PT. Arrisco dizer que tivesse o processo de investigação, julgamento e condenação de Lula caminhado mais lentamente, talvez a ideia de que Lula é um preso político, uma vítima do sistema do qual ele próprio se beneficiou, estivesse esvaziada. Quiçá isso tivesse atenuado os extremismos de todos lados. Mas a aura passou a toque de caixa.

O Museu Nacional é o símbolo do descaso do País, do dinheiro desperdiçado em malas obscenas, das prioridades tortas de um país que prefere gastar o pouco que resta das contas públicas em frangalhos na manutenção de estádios de futebol obsoletos, ou nos aumentos indesculpáveis de salários para certas categorias de servidores públicos. Inevitavelmente, a tragédia do Museu Nacional será politizada por todos os lados – para falar mal dos governos anteriores, para apontar os erros do teto de gastos, para a demagogia torpe dos “privatizacionistas” custe o que custar. O povo, perdido e indignado ante o paupérrimo elenco de candidatos, estará à mercê da cacofonia.

A cacofonia haverá de aumentar com o tempo de TV. Exemplos disso já se vê, com a imagem da menina de olhos fechados, a bala prestes a entrar em sua têmpora. A imprensa não tem conseguido impor nenhuma ordem nesse estado geral de desordem, pois já não consegue se posicionar com clareza ante os desafios do País. Em tempos de polarização extrema, a imparcialidade é posta em xeque – vi e continuo a ver isso de muito perto, numa democracia supostamente madura, a democracia americana. Confesso que, diante do descrédito que contamina a imprensa mundo afora, não tenho ideia do que deveria estar sendo feito de forma diferente.
O que sei é que ataques seguidos a candidatos cujas posições retrógradas instilam a sanha de desqualificá-los já não funcionam. Ou, têm o efeito reverso: seus eleitores sentem-se pessoalmente atacados pela imprensa, o que aumenta sua mobilização. Isso vale também para os candidatos que escolherem essa como a estratégia principal de suas campanhas. Indignação e raiva poderiam ser contidas com sobriedade e a clara articulação de propostas sobre temas caros ao povo brasileiro. Novamente, a aura já passou.

Assim entramos no pior período, o da enxaqueca debilitante, da dor pulsante que não responde a qualquer medicamento, que precisa de tempo para passar. Às vezes, esse tempo é curto – dura somente alguns dias. Outras vezes, entretanto, o tempo é longo ou não passa. Já não creio que 28 de outubro marcará o fim.

Fonte: ESTADÃO de 05/09/2018

 

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5 Responses to DESORDEM

  1. Léo Guedes says:

    Inspira-me uma curiosidade. O tempo, as circunstâncias, o espaço. Não há como evitar o processo. Antes lento, gradual. Agora rápido, estonteante. Lia-se a história por séculos. Não há mais o que se ler, pois a história se postou no aqui, no agora. Estamos, como se diz, no olho do furacão. Minha memória corre para uma frase dita por um estudioso filósofo. “Nada é mais parecido do que uma casa em construção e uma em demolição. O olhar de cada um se fixa naquilo que mais o sensibiliza. Penso que estamos em meio à construção, mas ela continua sendo lenta e gradual. Mas há os que têm pressa. Chineses costumavam pensar em séculos para seguir e se guiar por um processo. Mao fez uma curva abrupta na história instigado por Marx. Mas, como a colheita, há que se esperar pelo tempo certo e apropriado. Tempo e espaço são categorias tanto de quantidade, como de qualidade.

  2. Léo Guedes says:

    Tenho que tirar o chapéu para a esquerda. Decididamente ela é esperta, não inteligente. Como animal não tem intelecto, ele usa da esperteza que vem do instinto de conservação. Já o homem, por ter característica intelectual, pode ser inteligente. Mas dizia eu que a esquerda se pronunciou pela sociedade através de um discurso da diferença entre os políticos tradicionais, sujeitos ao uso do Estado em seu benefício e à sua irmã de criação, a corrupção, e a decência moral e ética de um partido que aglutinava as forças do bem. Mas não bastava somente aparecer com esse discurso moralista. A reação do mercado forçou Lula a abrandar seu discurso. Assim, ficou a presença do bem e a convivência com as forças vivas da sociedade. Mas, porém, todavia, no entanto, entretanto, não obstante, o poder traz consigo vícios, muito mais do que virtudes. E um camelo carregado de ouro continua sendo um camelo. Em outras palavras, não importa a bandeira que um indivíduo se coloca, pois ele traz em si vícios e virtudes humanas. E a esquerda, apesar de se achar portadora do bem, não resistiu à tentação e mergulhou firme no erário do zé mané. As duas operações judiciais, Mensalão e Lava Jato, acabaram por igualar a esquerda aos políticos tradicionais. Ainda arrastaram idiotas, pois que existem em profusão, afirmando que seu roubo era diferente, era para um futuro Estado onde o povo seria o governador. Mas as vísceras ficaram expostas. E qual o argumento então usado pela esquerda? Todos são iguais, por isso, vote na esquerda que é mais igual do que os outros, já que todo político é mal intencionado. Não é lindo? Da nobreza, da santidade, a esquerda desceu à terra dos homens comuns. Mas com um novo discurso, nossos bandidos são melhores do que os antigos criminosos. Assim, Lula rouba, mas faz. Ué, não era o Ademar de Barros que conduzia essa bandeira? Repito Nelson Rodrigues que tinha um faro enorme para cheirar a esquerda. Os idiotas conquistarão o mundo, pois a natureza os produz em profusão.

  3. Aparecida Araujo says:

    Protesto que os mineiros pretende eleger a dita senhora como senadora , primeiro ela não é mineira igual o Presidente Itamar não era baiano, pois quem está elegendo são os fanáticos lulista, no Brasil está igual a Alemanha com o nazismo é lamentável julgar que são os mineiros.

    • magu™ says:

      Uai, Cida, não pretendia ofender seu brio de mineira, e imagino que vc não votará nela, mas seus conterrâneos vão fazer a cagada…
      1 – Quem nasce em Belô é o que?
      2 – Segundo as notícias, dilmanta tem 28% e viana 15% e elegem dois senadores. Então…
      3 – E ao que eu saiba, mesmo sendo paulista, ao elegerem Pimentel governador, é sinal que tem fanáticos lulistas a dar com pau em Minas, não importando que o novededos seja um bandido…
      4 – Se a minha lógica está errada, lamento, mas é a mídia mineira que induz minha lógica…

      • Magu, como reação os mineiros estamos fazendo campanha para votar para senador no SEGUNDO E TERCEIRO LUGARES das prévias. Por coincidencia, ambos são RODRIGOS, se não me engano um é 300 e o outro 170. Bolsonaro e Novo…
        Talvez consigamos jogar a anta para fora do Senado, antes que entre.

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