AS DESPEDIDAS – ACABARAM-SE AS FÉRIAS

                                                                         Revista Época – 20/2/2018

Estranhei que não via mais a coluna de Walcyr Carrasco, mas não me detive em procurar razões. Uma daquelas coisas que escapam da nossa atenção. Acidentalmente no domingo 6 de junho de 2019, mais de ano após, pois sempre navego aleatóriamente, topei com esta despedida, que publico agora. É uma pena, Walcyr, pois gostava muito de seus escritos, e não sou de ver novelas.

Seja feliz, onde quer que o vento o levar. Que o desconhecido lhe seja leve e agradável…


QUANDO O VENTO SOPRA – Walcyr Carrasco

Os amigos acham que sou meio maluco. Eu, é óbvio, me considero perfeitamente são. Quem acredita em astrologia tem uma explicação: Sagitário mutável. Quem não, pode me encarar como aquele tipo de pessoa que se sente uma folha ao vento, disposta a voar para o desconhecido. Tudo na minha vida é mutável. Nas coisas mais prosaicas, mais cotidianas. Por exemplo, mudo de casa o tempo todo. Não são mudanças fáceis, tenho bem uns 20 mil livros, quadros, lindezas acumuladas ao longo da vida e até uma extraordinária coleção de canecas, suvenires dos países que visitei ou presenteadas por amigos. Já morei na Bela Vista, na Pompeia, na Aclimação, na Lapa, na Praça da República, no Morumbi, na Granja Viana, em Higienópolis, no Pacaembu, na Consolação. Tenho inveja de pessoas há 20 anos no mesmo endereço. Talvez seja uma síndrome. Quando era adolescente, minha família passou por uma crise financeira grave. Mudávamos de casa a cada seis meses, para um aluguel mais baixo.

Cresci, me firmei profissionalmente. Mas a vontade de mudar continuou intacta. Já estou me preparando para um novo endereço, acreditam? E os cabelos então? Usei curtinhos, máquina 1. Deixei crescer, mas a franja faz uma onda justamente em cima dos meus óculos. Fica um horror. Um dia descobri que estava grisalho.  Platinei os cabelos para radicalizar. Passei dois anos descolorindo e me sentindo um gato.  Até que… uma falha cresceu no meu cocoruto! Descobri que em breve ficaria sem cabelos! Muita química dá nisso. Passei a usar um tonalizante cinza. Fui para uma temporada no Rio de Janeiro. E descobri que meus cabelos voltaram pretos, com um leve grisalho! (Ninguém me explique como isso aconteceu. Ando fazendo um tratamento ortomolecular, e o grisalho retrocedeu.) Devia estar satisfeito. Não. Olho no espelho e penso.

– Como ficaria na máquina zero?

Assim é tudo na minha vida. Lamentavelmente, são pouquíssimos os amigos para sempre. (Existem, desde minha infância. Mas posso contar nos dedos.) Muitas vezes conheço alguém, me entusiasmo. Nos tornamos melhores amigos durante seis meses. Depois não nos vemos mais, sem explicação. Dos amores, nem tenho coragem de falar. Vejo meus amigos bem casados, com vidas estabelecidas e sem reviravoltas emocionais. Invejo porque, a maior parte do tempo, vivo num furacão!

Profissão, passei por muitas. Umas por necessidade, outras por vocação. Fui vendedor de livros de porta em porta (quando ainda se vendiam coleções), fiz figurino e cenário de cinema, pintei paisagens para ganhar algum nos Estados Unidos. Lá também me dediquei à faxina e fui garçom. Dei aulas. Fui ator profissional. Estudei História na Universidade de São Paulo e pretendia ser arqueólogo. Quase no final, prestei novo vestibular para a Escola de Comunicações e Artes. E me formei em jornalismo. Minha meta sempre foi ser escritor. Cheguei a me tornar diretor de redação de revistas importantes. Larguei, sem ter a menor ideia de aonde iria. Queria me dar a oportunidade de me tornar escritor, viver basicamente de ficção. Minha família apavorada acreditava que eu morreria de fome. Mas escrevi livros infantojuvenis adotados em escolas de todo o país, peças de teatro, algumas de sucesso. Depois de duras lutas, entrei no mundo da televisão, que adoro. Mas é trabalho pesado. Com uma novela das 21 horas no ar, como agora (O outro lado do paraíso, Rede Globo), são 25 páginas por dia. Um capítulo, exatamente. Mas não dói. Sempre fui apaixonado por ficção.

Agora o vento sopra novamente, e eu me despeço de vocês, leitores deste espaço. Foram anos, muitas colunas. Algumas não muito boas, confesso. Tenho autocrítica para saber que nem sempre brilhei. Outras, porém, deram significado a minha vida. Recentemente encontrei uma senhora no aeroporto. Ela veio até mim, citou uma coluna, que tinha recortado e guardado, para reler sempre.

– Foi muito importante para mim – disse.

Esse tipo de encontro dá sentido a tudo que escrevi e vou escrever. Mas eu sempre tive uma espécie de bússola interior, que me dizia a hora de partir. Mesmo sem saber para onde. E veio o momento da renovação. Outros jornalistas e colunistas estarão aqui, dando seu melhor. Eu me despeço. Mas não é um adeus, já que estou na televisão com as novelas e na internet falando o que vem a minha cabeça. Agradeço a todos vocês que me acompanharam nesse tempo. Pelo carinho tantas vezes demonstrado. Mais uma vez, deixo o vento me levar.


Aproveitando a oportunidade do texto, quero também comunicar minha despedida, a terceira, mas a definitiva, pois verificando as estatísticas deste blog, constatei que a leitura do mesmo vem caindo mensalmente, talvez porque o redator nunca teve qualidades suficientes para manter alto o interesse da turba. Há também a confusão da política (?) nacional a me encher, e continuo vendo a cara daqueles petralhas e seus associados no parlamento, o que muito me incomoda. Esperava que muitos deles estivessem presos, mas a juspiça brasileira é o que ‘a gente’ sabe. O capitão não chega a me decepcionar, propriamente dito, mas não é o que eu esperava… Mas ainda há tempo. Vamos ver o resultado.

E eu já havia escrito que continuaria enquanto fosse divertido. Pois bem, infelizmente já deixou de ser.

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A charge inclusa abaixo é de 05 de julho de 2013, quando Giulio voltou do hospital, onde tinha passado poucos dias, retomando a editoria do blog, que ficou sob minha curatela enquanto ele esteve internado. Momento brilhantemente captado pela sensibilidade do Róc, na charge. Dizia-se que ele ia me enterrar, por eu ter perdido uma pá de leitores, durante sua ausência… Infelizmente, foi uma premonição inversa, pois vários dias depois ele teve um peripaque definitivo. Com certeza deve ter ido para um lugar superior, pois era um encarnado da melhor qualidade! Durante anos conversamos horas diariamente pelo Skype! Eu tinha até uma pretensão de ir à Itália para conhecê-lo pessoalmente, mas acabou por não dar tempo…

No mês de novembro de 2014, o blog teve maravilhosos 94.998 leitores, nosso pico, até fazendo com que eu e o também falecido parceiro Gil tivessemos laivos de achar que sabíamos alguma coisa de blog. Qual o que! A partir daí, por obra do Tempo, essa entidade terrivelmente inclemente da natureza planetária, o declínio de leitores foi constante, a ponto de, no mês passado, junho de 2019, a estatística apresentar apenas 4.552 (5% do mês e ano citados anteriormente) leitores no mês inteiro. Também quase não há mais comentaristas, algo que faz que um blog permaneça vivo. Bem, não vou fechar o blog. Ele ficará aí, como outros tantos, sem atualização. O polentone que me perdoe, esteja onde estiver. Desejo que os leitores sejam felizes, mesmo vivendo nestas plagas pindorâmicas complicadas…

Novamente agradeço de coração a atenção que dispensaram a este último dos mohicanos, que brevemente vai completar 74 anos. Lembro aos que não querem perder, que o Róc (meu apreciadíssimo e respeitado chargista de tantos anos de convívio ao longe) tem endereço onde publica suas charges  https://www.sponholz.arq.br/

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4 Responses to AS DESPEDIDAS – ACABARAM-SE AS FÉRIAS

  1. Alexandre Oliveira says:

    Para com isso, cara!!!

  2. Cláudio Roberto de Oliveira says:

    Uma pena. O tempo é mesmo implacável. Estou também em rota de adeus. Sou aquela bananeira que já deu cacho. Por uns poucos anos me diverti lendo coisas boas aqui e escrevendo algumas bobagens. Valeu muito. Um abraço a todos. Lerei ainda o que postarem, mas não mais comentarei. Quando cessarem as postagens, encerrarei também minha conta de e-mail. Ela está servindo só para anúncios indesejados que só me enchem o saco.

  3. Siará says:

    Lamento a desistência, continuei vendo o blog até um final.
    Obrigado a todos que fizeram e leram o blog, quem sabe um dia ele volta.

  4. Ronaldo says:

    Magu, o latifundiário de Pinhalzinho:
    Quero sugerir: a despedida, se realmente houver, que seja na Casa da Colina. Com as “comidas” e os birinaites sejam todos free.
    Abraço a todos.

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